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Rainhas de mamangava podem sobreviver até oito dias debaixo d’água no inverno

Mão segurando pote com abelha grande dentro de líquido transparente em ambiente de laboratório.

Quem associa mamangavas a um zumbido tranquilo sobre prados de verão acerta apenas em parte. O verdadeiro drama de sobrevivência acontece no inverno, debaixo da terra - no escuro, na lama e, muitas vezes, em cavidades totalmente encharcadas. Um grupo de pesquisa do Canadá acabou encontrando por acaso algo que deixou até biólogos sem palavras: em certas condições, rainhas de mamangava conseguem permanecer vivas debaixo d’água por até oito dias.

Um frigorífico avariado, quatro rainhas “afogadas” - e todas vivas

O ponto de partida dessa descoberta parece mais um acidente de laboratório do que um avanço científico. Em 2020, a bióloga Sabrina Rondeau trabalhava na Universidade de Guelph com rainhas de mamangava em fase de hibernação. Os insetos estavam no frigorífico, quietos, dentro de pequenos recipientes. Durante a noite, o aparelho vazou e a água acabou enchendo os tubos.

Na manhã seguinte, quatro rainhas estavam boiando há mais de doze horas, completamente submersas. Rondeau esperava retirar corpos sem vida das amostras. Em vez disso, as quatro se mexiam. Nenhuma tinha morrido.

“O que parecia um erro de laboratório acabou se revelando como um indício de uma capacidade até então totalmente desconhecida: rainhas de mamangava, durante o sono de inverno, conseguem respirar diretamente na água.”

Do espanto nasceu um experimento controlado. A equipa colocou 143 rainhas de mamangava em água fria e as manteve ali, dia após dia. O resultado: depois de sete dias, 81% dos animais ainda estavam vivos. Algumas aguentaram até oito dias consecutivos embaixo d’água.

O dado mais intrigante: a taxa de sobrevivência foi maior do que no grupo de controlo que permaneceu no ar no mesmo período. Ou seja, pelo menos no curto prazo, as rainhas parecem ficar mais protegidas na água do que na superfície.

Como as mamangavas normalmente atravessam o inverno

Para entender o peso desses achados, vale olhar para a vida invernal das mamangavas. Apenas as rainhas fecundadas conseguem passar do outono para a estação seguinte. No fim do outono, elas escavam o solo e se enterram a vários centímetros de profundidade. Ali, ficam totalmente imóveis - numa espécie de “coma” de inseto.

É justamente aí que surge o problema: com chuvas mais intensas, períodos de degelo e invernos mais amenos, a água tem invadido com mais frequência essas cavidades no solo. As rainhas podem acabar presas em câmaras inundadas, sem uma rota de fuga.

  • Hibernação no solo, muitas vezes entre novembro e março
  • Imobilidade numa fase de repouso de altíssima economia de energia
  • risco crescente com solos encharcados e alagados
  • importância elevada: cada rainha pode iniciar uma colónia inteira na primavera

Até agora, muitos especialistas assumiam que inundações prolongadas matariam as rainhas rapidamente. Os novos dados desmontam essa ideia.

Três truques que permitem às rainhas de mamangava sobreviver na água

No periódico Proceedings of the Royal Society B, a equipa descreve como isso é possível. Os pesquisadores mediram o consumo de oxigénio e a produção de CO₂ das rainhas em hibernação - tanto no ar quanto submersas.

1. Respiração pela superfície do corpo - troca gasosa passiva

A cobertura externa das mamangavas, a chamada cutícula, não é totalmente impermeável. Em água fria, o oxigénio pode atravessar essa camada e alcançar os tecidos. Não se trata de “puxar ar”, mas de um fluxo lento e contínuo de oxigénio dissolvido entrando no organismo.

Sozinho, esse mecanismo ofereceria uma margem muito limitada. No entanto, combinado com os demais processos, torna-se suficiente durante o sono de inverno.

2. Uma “bolsa” de ar que funciona como brânquia física

O segundo recurso está no “casaco” de pelos. As mamangavas têm muita pilosidade, e entre esses fios finos permanece aderida, mesmo submersa, uma camada fina de ar. Em casos assim, os cientistas falam em uma “brânquia física”.

Essa microbolha atua como uma zona de transição: o oxigénio da água difunde para a camada de ar e, dali, segue para as aberturas respiratórias (espiráculos) do inseto. É um princípio já observado em alguns percevejos aquáticos e em outros insetos que mergulham com frequência.

3. Metabolismo drasticamente reduzido

O terceiro elemento é o mais extremo: durante a hibernação, as rainhas desaceleram o metabolismo a tal ponto que passam a exigir apenas uma fração da energia e do oxigénio normalmente necessários.

No laboratório, isso ficou claro: a cerca de três graus Celsius, uma rainha no ar produziu, em média, 14,4 microlitros de CO₂ por hora e por grama de peso corporal. Submersa, esse valor caiu para 2,35 microlitros - aproximadamente um sexto.

“É justamente porque as rainhas de mamangava reduzem o metabolismo a níveis mínimos que as quantidades ínfimas de oxigénio da água e do filme de ar conseguem sustentar a sobrevivência.”

Sem esse “travão” forte, os animais sufocariam na água em poucas horas. Com ele, o corpo consegue equilibrar o quase nada de consumo com um reabastecimento mínimo - e, ainda assim, manter o sistema funcional.

O que isso significa para as mamangavas num cenário de mudança climática

Modelos climáticos indicam que chuvas extremas e cheias de inverno tendem a aumentar em muitas regiões da Europa e da América do Norte. Os solos permanecem húmidos por mais tempo, e poças e infiltrações avançam para camadas mais profundas. É exatamente lá que as rainhas de mamangava ficam.

A capacidade agora demonstrada de sobreviver submersa parece, à primeira vista, um mecanismo de proteção brilhante. Ela pode evitar que gerações inteiras desapareçam em invernos muito chuvosos ou com muita neve.

Ao mesmo tempo, o estudo abre novas dúvidas:

  • Qual é o limite máximo de tempo que as rainhas suportam submersas?
  • Elas conseguem enfrentar várias ondas de alagamento em sequência?
  • Qual é o custo energético dessa “façanha”?

No laboratório, a equipa avaliou “apenas” oito dias. Ainda não se sabe se, na natureza, há casos de duas ou três semanas de solo alagado - e se as rainhas conseguiriam resistir. Também permanece incerto se ciclos repetidos de inundar e secar geram mais stress do que uma única fase longa.

O gasto energético pode consumir as reservas de gordura das rainhas

No início do inverno, as rainhas de mamangava acumulam um verdadeiro estoque de gordura. É dele que tiram energia durante meses, até despertarem na primavera, iniciarem um ninho e criarem as primeiras operárias.

Alagamentos mais longos - ou repetidos - podem colocá-las numa situação delicada. Mesmo com o metabolismo bastante reduzido, cada hora de hibernação consome energia. Na água, essa necessidade pode até aumentar, seja por stress, seja por pequenas elevações na taxa metabólica.

Por isso, o grupo de pesquisa planeja novos testes: medir as reservas de gordura das rainhas antes e depois de uma fase submersa mais longa. A ideia é descobrir se elas conseguem atravessar o inverno, mas chegam à primavera esgotadas demais para fundar uma colónia com sucesso.

Outros insetos também conseguem esse “truque aquático”?

As mamangavas não são os únicos polinizadores que passam o inverno no solo. Muitas espécies de abelhas nativas, alguns tipos de borboletas e vários outros insetos atravessam a estação fria como pupa, larva ou adulto enterrado.

Se rainhas de mamangava dominam essa forma de “respiração” na água, é plausível suspeitar que outras espécies tenham desenvolvido algo parecido. Para especialistas, isso pode ajudar a explicar por que certas populações de insetos permanecem estáveis apesar de invernos cada vez mais húmidos.

Ao mesmo tempo, a descoberta abre linhas de investigação que vão além das mamangavas. A combinação entre troca gasosa passiva, filme de ar e metabolismo extremamente reduzido pode servir como modelo - por exemplo, para entender melhor a imobilidade por frio, a economia de energia e a resistência em outros animais.

O que pessoas leigas podem tirar da pesquisa com mamangavas

Na prática, isso não significa que alguém deva colocar mamangavas de propósito na água. As condições de laboratório eram controladas: água fria e animais em hibernação profunda. Num recipiente com água morna da torneira, elas chegariam ao limite muito mais rapidamente.

Ainda assim, para conservação e para quem cuida de jardins, dá para extrair alguns pontos concretos:

  • Não revolver o solo o tempo todo no outono, sobretudo em áreas abertas e húmidas - pode haver rainhas ali.
  • Incentivar diversidade de estruturas no jardim: cantos mais secos e mais húmidos criam alternativas de refúgio.
  • Evitar produtos químicos no solo, para que rainhas enfraquecidas tenham melhores chances na primavera.

Também vale notar o termo biológico “hibernação”. Diferente de um repouso curto, trata-se de uma imobilidade por frio que dura meses, com funções corporais fortemente reduzidas. Muitos mamíferos, como ouriços e marmotas, fazem isso. Agora, as mamangavas mostram que até insetos pequenos podem usar estratégias extremas nessa fase - chegando a uma existência temporária sob a água.

Para a ciência, a mamangava passa a ser uma espécie de “atleta-modelo” em adaptação climática. Até onde vão as suas reservas e em que ponto essa capacidade falha devem se tornar questões centrais nos próximos anos. Uma coisa já está clara: por trás do aparente descanso invernal da rainha de mamangava existe um programa de sobrevivência muito mais espetacular do que o seu voo discreto no verão deixa imaginar.

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