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Como a história colonial molda as atitudes em relação à vida selvagem nas Américas

Jovem com caderno em mãos em frente a mural colorido com cenas da fauna e povos indígenas da floresta.

Nas Américas, a reação à presença de animais silvestres em áreas humanas varia muito. Em certos países, as autoridades costumam abater indivíduos vistos como perigo. Em outros, a prioridade é tentar realocação, instalar barreiras ou buscar formas de convivência antes de partir para medidas letais.

Há décadas, cientistas associam essas diferenças a fatores como economia, geografia ou políticas públicas. Um estudo recente, porém, indica que a explicação pode ser bem mais profunda.

Segundo a pesquisa, a forma como as pessoas encaram a vida selvagem hoje pode ter raízes que remontam a centenas de anos, ligadas à história colonial, à religião e à influência cultural dos povos indígenas.

Ao analisar percepções sobre animais em países da Europa e das Américas, o trabalho identificou padrões marcantes que ainda orientam decisões de conservação na atualidade.

Atitudes diferentes em relação à vida selvagem

Nos Estados Unidos, quando um puma se aproxima de um bairro residencial, é comum que a resposta oficial avance rapidamente para o controle letal. Em partes da América Latina, onças-pintadas que ameaçam rebanhos tendem a ser mais frequentemente toleradas ou realocadas.

Para os pesquisadores, essas escolhas refletem duas maneiras amplas de enxergar os animais. A primeira, chamada de “mutualismo”, entende a vida selvagem como parte de uma comunidade compartilhada, com valor que vai além do uso humano.

A segunda, conhecida como “dominação”, trata os animais sobretudo como recursos que as pessoas podem gerir - ou eliminar - quando julgam necessário.

A maioria das pessoas não se encaixa totalmente em um único polo. Ainda assim, países inteiros costumam pender com força para um lado ou para o outro.

Pesquisa mostra um divisor cultural

A equipa de pesquisa, liderada pela Colorado State University (CSU), ouviu quase 18.500 pessoas em 33 países da Europa e das Américas. Os resultados apontaram um contraste nítido.

Em geral, países da América Latina registaram as maiores pontuações em mutualismo e as menores em dominação. Já a América do Norte e o norte da Europa exibiram valores de dominação muito mais fortes.

O sul da Europa apareceu numa posição intermediária - mais próximo da América Latina do que do norte europeu.

Um resultado chamou particularmente a atenção: a América Latina teve pontuação mais alta em mutualismo do que Espanha e Portugal, que colonizaram grande parte da região.

Esse achado levou o grupo a procurar explicações para além da política e da economia contemporâneas.

A história colonial faz diferença

Os autores observaram que o mapa dos valores atribuídos à vida selvagem se parecia fortemente com o mapa das influências coloniais.

“Instituições britânicas incentivaram a formação de assentamentos, enquanto instituições espanholas e portuguesas se concentraram na extração de recursos como o ouro”, afirmou o autor principal Michael Manfredo, professor do Warner College de Recursos Naturais da CSU.

“Além disso, a orientação religiosa dos países do norte da Europa defendia a dominação humana, o que não ocorria no sul da Europa. Os valores atuais são consistentes com essas diferenças.”

O estudo destaca a Reforma Protestante como uma influência importante. Com o tempo, sociedades do norte europeu passaram a aderir mais a ideias de controlo humano sobre a natureza. No sul europeu, de tradição católica, a relação com o mundo natural manteve-se mais moderada.

Quando potências europeias avançaram para as Américas, levaram consigo essas crenças. Ao longo de séculos, tais valores foram-se incorporando a sistemas políticos, práticas de gestão do território e atitudes públicas em relação à vida selvagem.

Valores indígenas mudaram as atitudes em relação à vida selvagem

A investigação também procurou entender por que a América Latina adotou uma postura mais mutualista do que a própria Espanha e Portugal. A hipótese central é que as culturas indígenas tiveram um papel decisivo.

“Na época da colonização europeia, havia grandes cidades e números significativos de indígenas na América Latina, 50 milhões de pessoas ou mais”, disse Manfredo.

“Concluiríamos que os valores atuais de mutualismo ali surgiram por meio da aculturação de visões razoavelmente compatíveis sobre a vida selvagem entre ibéricos e indígenas.”

Na América do Norte, o percurso foi diferente. Embora povos indígenas também sustentassem visões mutualistas sobre animais, os sistemas coloniais acabaram por afastar muitas dessas perspectivas das instituições e políticas dominantes.

Opiniões sobre matar animais silvestres

Para captar a opinião pública, os pesquisadores perguntaram aos participantes o quão aceitável seria matar animais silvestres em diferentes circunstâncias.

Entre os cenários avaliados estavam situações em que os animais danificam plantações, transmitem doenças, ameaçam animais de estimação ou criações, provocam acidentes de trânsito ou atacam seres humanos.

As respostas acompanharam de perto o contraste entre mutualismo e dominação.

Em países com maior inclinação à dominação, houve apoio ao controlo letal em muitos contextos. Nos países mais mutualistas, a concordância com o abate foi bem menor, exceto quando existia ameaça direta à segurança humana.

“O controlo letal é a forma fundamental de a América do Norte lidar com conflitos entre humanos e vida selvagem”, afirmou Manfredo. “Ele é usado para uma ampla variedade de finalidades, incluindo segurança, produção agropecuária e limitação de espécies invasoras.”

Estratégias de conservação enfrentam resistência

As conclusões têm implicações relevantes para programas de conservação no mundo todo.

Organizações internacionais de vida selvagem frequentemente tentam aplicar, em outros países, estratégias que deram certo em determinado lugar. Contudo, iniciativas podem fracassar quando desconsideram valores culturais locais.

Uma estratégia de gestão de predadores bem aceita nos Estados Unidos pode encontrar resistência no México ou no Peru, mesmo que a base científica permaneça sólida. A divergência pode nascer de crenças mais profundas sobre qual papel os animais deveriam ocupar na sociedade.

“Manter a vida selvagem é um problema global e, a menos que você leve em conta as diferenças culturais, o sucesso será difícil”, disse Manfredo. “O que é uma prática aceitável em um país pode ser inaceitável em outros.”

O estudo indica que grupos de conservação precisam compreender os valores sociais locais antes de desenhar políticas para a fauna.

Atitudes em relação à vida selvagem mudam lentamente

Os autores observam que mudanças culturais ocorrem, mas tendem a ser lentas.

Nos Estados Unidos, alguns indícios sugerem crescimento de valores mutualistas, sobretudo em populações urbanas.

“Vemos nos Estados Unidos uma mudança, saindo da dominação e indo em direção a valores mais mutualistas, devido a forças de modernização como aumento de renda, educação e urbanização”, afirmou a professora Tara Teel, da CSU, coautora do estudo.

Ela acrescentou que é essencial monitorar regularmente a opinião pública para verificar se as políticas das agências acompanham as populações que elas atendem.

Em vez de tentar transformar crenças sociais de forma rápida, especialistas defendem que conservacionistas atuem dentro dos quadros culturais já existentes.

“Precisamos trabalhar dentro dos conjuntos de valores que existem em lugares diferentes e entendê-los para sermos eficazes na conservação”, disse Teel.

Crenças de séculos atrás ainda persistem

A pesquisa reforça que conflitos atuais envolvendo vida selvagem não dizem respeito apenas aos animais. Eles também são moldados por séculos de crenças herdadas, instituições e tradições sociais.

Discussões sobre atirar, realocar ou tolerar predadores podem parecer meramente práticas à primeira vista. No entanto, muitas vezes reproduzem ideias bem antigas sobre o lugar da humanidade na natureza.

Os pesquisadores defendem que reconhecer essas influências históricas pode ajudar países a construir políticas de conservação mais alinhadas às pessoas que convivem diariamente com a vida selvagem.

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