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Colônia gigante de 5,56 milhões de abelhas no East Lawn Cemetery, em Ithaca

Pesquisadora observa colmeias de abelhas em campa aberta em um cemitério ensolarado.

O que poderia sair do roteiro de um filme de mistério está acontecendo em Ithaca, no estado de Nova York (EUA): sob fileiras bem cuidadas de túmulos, gramados e árvores antigas, existe há décadas uma população gigantesca de abelhas selvagens - e quase ninguém percebeu. Ao finalmente quantificar o fenômeno, uma equipe de pesquisa esbarrou no limite do que se imaginava possível para agregações de abelhas.

Uma “cidade de abelhas” sob o gramado do lado leste

No cemitério East Lawn Cemetery, em Ithaca, biólogos da Cornell University registraram uma das maiores concentrações já descritas de abelhas que fazem ninho no solo. O foco do levantamento foi a espécie Andrena regularis, uma abelha-da-areia discreta que se sabe ocorrer ali desde pelo menos 1935 - mas até agora ninguém havia tentado estimar quantos indivíduos, de fato, viviam no local.

Na primavera de 2023, o grupo passou cerca de seis semanas trabalhando no cemitério. Com armadilhas específicas e caminhamentos sistemáticos, eles mediram quantas abelhas emergiam do chão ao longo da área. A partir desses registros, chegaram a uma estimativa que chamou a atenção de especialistas: aproximadamente 5,56 milhões de indivíduos distribuídos por cerca de 6.500 metros quadrados.

Sob uma área menor do que um campo de futebol vive uma população que poderia preencher mais de 180 colmeias de abelhas melíferas.

Como referência, uma colmeia típica de abelhas melíferas abriga, ao longo do ano, por volta de 30.000 operárias. No East Lawn Cemetery, as abelhas-da-areia superam isso em muitas vezes - e sem qualquer colmeia visível, já que não ocupam caixas de madeira nem cavidades em árvores: elas se instalam no próprio solo.

O que torna essa colônia tão fora do comum

A ciência já conhece agrupamentos grandes de abelhas selvagens. Ainda assim, a escala observada em Ithaca supera vários recordes anteriores. No Arizona, descreveu-se um ponto com algo como 1,6 milhões de abelhas que nidificam no chão; outro local no estado de Nova York chegou a cerca de 651.000. No Brasil, pesquisadores contabilizaram por volta de 13.500 abelhas em uma área bem menor.

Esses valores já são notáveis, mas parecem modestos diante de mais de 5,5 milhões de abelhas sob um cemitério. A avaliação de especialistas é que podem existir outras agregações enormes pelo mundo que simplesmente nunca foram investigadas com cuidado - em parte porque espécies que nidificam no solo passam despercebidas com facilidade.

A maioria das pessoas associa abelhas automaticamente a mel, favos e colmeia - mas uma grande parcela das espécies vive invisível no chão.

Segundo as estimativas citadas pelos pesquisadores, cerca de 70% das espécies de abelhas nos EUA constroem ninhos no solo. Muitas têm vida solitária: não formam um “estado”, não possuem rainha e não produzem mel. Cada fêmea escava seu próprio ninho, com várias células de cria. À primeira vista, locais assim costumam se denunciar apenas por centenas de pequenos orifícios no terreno, como marcas de alfinete.

Como foi feita a contagem no cemitério

Para ir além de um palpite grosseiro, o time combinou armadilhas, mapeamento e extrapolações. Em termos simples, o procedimento seguiu esta lógica:

  • Instalação de armadilhas de emergência (caixas de tela) sobre trechos selecionados do solo
  • Contagem das abelhas que emergiam dessas áreas por várias semanas
  • Projeção dos valores para toda a área de nidificação previamente mapeada
  • Conferência com observações em campo e com fotos feitas por drones

O resultado não é uma contagem indivíduo a indivíduo, mas sim uma estimativa cientificamente consistente - e que deixa claro que a colônia está na casa dos milhões e figura entre as maiores já descritas.

Por que um cemitério vira um paraíso para abelhas

À primeira vista, o lugar parece improvável; para as abelhas, porém, a escolha faz sentido. Cemitérios reúnem características muito favoráveis para espécies que nidificam no solo:

Fator Vantagem para as abelhas
Rotina tranquila Pouca perturbação contínua por pessoas, máquinas e tráfego
Solo raramente revolvido Áreas de túmulos e gramados permanecem relativamente estáveis por décadas
Pouca construção Quase não surgem prédios novos ou impermeabilização; sobram pontos com solo exposto
Árvores e plantas floridas Oferta regular de pólen e néctar na primavera

Essa combinação transforma espaços como o East Lawn Cemetery em refúgios valiosos para polinizadores. Em muitas cidades, cada metro quadrado acaba ocupado por construções ou convertido em gramados muito densos; já cemitérios frequentemente mantêm diversidade e uma “permeabilidade” surpreendentes.

Áreas discretas como cemitérios, taludes ou terrenos baldios muitas vezes contribuem mais para proteger polinizadores do que se imagina.

O papel subestimado das abelhas solitárias

Espécies como Andrena regularis não produzem mel e quase não são “vendidas” ao público - por isso raramente entram no centro das atenções. Ainda assim, elas respondem por uma parcela importante da polinização e, em certas plantas silvestres e culturas agrícolas, podem até atuar de forma mais eficiente do que as abelhas melíferas.

Abelhas solitárias tendem a ter vínculos estreitos com plantas específicas ou com janelas curtas de floração. Muitas voam por apenas algumas semanas no ano e sincronizam seu ciclo com a florada das principais fontes de alimento. Se essa fase falha - por exemplo, devido a estiagens prolongadas ou geadas tardias intensas - populações inteiras podem sofrer.

O que a mega colônia revela sobre a paisagem

O fato de uma população na casa dos milhões ter se mantido por décadas justamente em um cemitério aponta para uma mensagem direta: onde o solo permanece acessível, flores conseguem se estabelecer e a intervenção humana é limitada, abelhas selvagens podem formar concentrações estáveis e densas.

Ao mesmo tempo, o estudo sugere, de maneira indireta, o que falta em muitas outras regiões: locais de nidificação tranquilos, pouco perturbados, e uma oferta suficiente de flores ao longo da estação. Se até especialistas deixaram passar por tanto tempo uma mega colônia dentro de uma cidade pequena, isso também indica quantos “pontos quentes” semelhantes podem existir sem registro - ou já terem desaparecido.

O que disso pode ser adaptado para a Alemanha

Na Alemanha, a maioria das espécies nativas de abelhas não vive em colmeias, mas sim no solo, em cavidades, em antigos túneis de besouros ou em muros de pedra seca. A tendência de jardins “arrumados”, com áreas de brita, gramados artificiais e corte muito baixo, elimina em muitos lugares a base de que elas precisam.

Algumas medidas simples ajudam a reproduzir, em pequena escala, condições parecidas com as do East Lawn Cemetery - de forma prática e com efeito:

  • Permitir pequenos trechos de solo exposto, evitando pavimentar ou cobrir tudo com mulch
  • Plantar espécies floríferas com alta oferta de pólen, sobretudo plantas nativas
  • Cortar o gramado com menos frequência e por partes, deixando “ilhas” com flores
  • Evitar pesticidas químicos em jardins residenciais
  • Manter árvores antigas, madeira morta e cantos mais naturais de propósito

Prefeituras também podem tratar cemitérios, bordas de parques ou canteiros de trânsito como refúgios planejados para abelhas selvagens - por exemplo, com prados de flores em solo mais pobre, menos roçadas e menos “limpeza” excessiva. O estudo de Nova York reforça esse argumento.

Riscos, mal-entendidos e por que 5,6 milhões de abelhas não são um filme de terror

A ideia de milhões de abelhas sob os pés pode causar desconforto imediato em algumas pessoas. Na prática, abelhas-da-areia solitárias quase não representam perigo. Elas não são condicionadas a defender estoques de mel, tendem a ser bem mais pacíficas e só picam quando são apertadas ou muito perturbadas.

Quem circula normalmente por um cemitério, na maioria das vezes, nem percebe que há milhões de animais ali. O período de voo se concentra em poucas semanas na primavera e, mesmo então, costuma chamar mais atenção a grande quantidade de pequenos furos no chão do que enxames densos no ar.

Para alérgicos, vale a ressalva: qualquer picada pode ser problemática, independentemente da espécie. Ainda assim, a presença de uma colônia como essa quase não eleva o risco, porque esses insetos evitam pessoas e não fazem ataques defensivos como os que muitos associam a vespas perto de comida.

O que essa descoberta significa para a conservação

A mega colônia de Ithaca traz várias lições para a proteção de polinizadores:

  • Proteger áreas pouco chamativas compensa, porque elas podem ser verdadeiros hotspots de biodiversidade.
  • A pesquisa precisa dar mais atenção às abelhas que nidificam no solo, e não apenas às abelhas melíferas.
  • O planejamento urbano pode incorporar cemitérios como “degraus” ecológicos de conexão.
  • Moradores podem criar refúgios semelhantes com pequenos trechos mais selvagens no jardim.

A descoberta em Nova York evidencia como as abelhas selvagens trabalham escondidas - e como elas não dependem de cenários perfeitos de natureza intocada, mas de algo bem básico: tranquilidade, solo disponível e flores. Se uma cidade de abelhas com milhões de habitantes consegue se formar até sob lápides, dá para imaginar o potencial existente em muitas áreas discretas ao nosso redor.


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