O bluebuck desapareceu da ponta sul da África por volta de 1800, abatido até à extinção apenas 34 anos depois de naturalistas europeus o descreverem pela primeira vez. Mais de dois séculos depois, cientistas da Colossal Biosciences dizem querer trazê-lo de volta.
A empresa, sediada em Dallas, anunciou o bluebuck (Hippotragus leucophaeus) como a sexta espécie no seu portfólio de desextinção. A lista já reúne o mamute-lanoso, o dodô, o tilacino, o moa e o lobo-terrível.
Para a Colossal, o bluebuck marca o primeiro investimento de grande porte voltado diretamente para a conservação de antílopes. O momento do anúncio não foi por acaso: as populações de antílopes estão a despencar em várias regiões da África.
Uma crise dos antílopes à vista de todos
Os dados deixam pouca margem para dúvida. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 29 das cerca de 90 espécies de antílopes existentes no mundo estão ameaçadas de extinção. Em 62 por cento dessas espécies, as populações seguem em queda.
Algumas já estão no limite. A IUCN classifica addax, hirola, duíquer de Ader e gazela-dama como Criticamente Em Perigo. A saiga, que já esteve nessa mesma categoria, recuperou-se o suficiente para, em 2023, ser reclassificada como Quase Ameaçada - uma reversão rara na conservação moderna.
“Os antílopes africanos foram negligenciados durante muito tempo na conservação global. Enquanto outros grandes animais se beneficiam de tecnologias reprodutivas avançadas e de ampla pesquisa genômica, os antílopes ficaram para trás”, disse a Dra. Beth Shapiro, diretora científica da Colossal Biosciences.
Uma espécie perdida e conhecida por pouco tempo
O bluebuck vivia nas pradarias abertas do sudoeste do Cabo, na África do Sul, área que hoje integra a Região Florística do Cabo. Media cerca de quatro pés (1.2 meters) de altura no ombro e tinha chifres curvados para trás que chegavam a quase dois pés (56.5 centimeters).
A pelagem num tom prateado azul-ardósia - característica que rendeu ao animal o nome comum e o epíteto científico leucophaeus - transformou-o em alvo. Em poucas décadas após os primeiros encontros, colonos europeus eliminaram o bluebuck à base de tiros.
O biólogo alemão Hinrich Lichtenstein registou a morte do último bluebuck conhecido em 1799 ou 1800. O animal tornou-se o primeiro grande mamífero africano a desaparecer na história documentada.
Lendo o DNA antigo do bluebuck
O trabalho da Colossal começou em 2024 e partiu do genoma. Em colaboração com parceiros acadêmicos, a equipa obteve DNA de um exemplar com 200 anos, preservado no Museu Sueco de História Natural.
A liderança foi do Dr. Michael Hofreiter, professor de Genômica Adaptativa Evolutiva na Universidade de Potsdam e integrante do Conselho Consultivo Científico da Colossal. Os pesquisadores montaram um paleogenoma de alta cobertura de 40 vezes, descrito como um dos genomas antigos mais completos já recuperados.
A análise trouxe um ponto decisivo: o bluebuck teria persistido por pelo menos 400.000 anos com uma população pequena, porém estável, e sem indícios de endogamia. Assim, foi a caça no período colonial - e não uma fragilidade genética - que empurrou a espécie para fora do planeta.
“Os avanços tecnológicos que a Colossal alcançou transformaram o que era possível até poucos anos atrás, levando-nos de ler genomas antigos a reescrevê-los para a conservação”, afirmou o Dr. Hofreiter.
A equipa também confirmou que os parentes vivos mais próximos do bluebuck são os antílopes-sable e os antílopes-ruão. O ruão será usado tanto como referência genômica quanto como substituto celular no programa de desextinção.
Células-tronco abrem novas possibilidades
Os cientistas da Colossal relatam outro feito inédito: a obtenção de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) a partir do antílope-ruão. Essas células adultas reprogramadas conseguem originar praticamente qualquer tecido do corpo.
Com essa plataforma, os pesquisadores podem avaliar, em células, os efeitos das edições genéticas associadas ao bluebuck antes do nascimento de qualquer animal. As mesmas células também podem ser usadas para produzir óvulos e espermatozoides artificiais.
Esse segundo uso ultrapassa, e muito, o objetivo de desextinção. Ele pode viabilizar reprodução assistida para espécies vivas de antílopes que têm dificuldade de se reproduzir em cativeiro - incluindo alguns dos mamíferos mais raros da Terra.
Um avanço na reprodução de antílopes
A equipa afirma ter realizado, pela primeira vez no mundo, procedimentos bem-sucedidos de aspiração folicular (OPU) em duas espécies de antílopes: o antílope-ruão e o órix-de-chifres-de-cimitarra. Por ser minimamente invasiva, a técnica permite recolher óvulos de animais vivos numa escala considerada relevante.
Para isso, a Colossal desenvolveu novos equipamentos de ultrassom e reconstruiu do zero os protocolos hormonais. Os métodos foram descritos num pré-print disponibilizado no bioRxiv.
“Antes, recolher oócitos viáveis de espécies selvagens de bovídeos era quase impossível e não permitia escala. Essas novas técnicas ampliam de forma dramática o nosso conjunto de ferramentas de conservação”, disse Matt James, diretor de animais da Colossal.
A construção de uma rede de segurança genética
A Colossal Foundation, braço sem fins lucrativos da empresa, iniciou um programa global de biobancos chamado BioVault. A iniciativa dá prioridade a antílopes africanos ameaçados.
Equipas de campo recolhem e preservam material genético de populações selvagens antes que mais diversidade desapareça. Em conjunto com as novas técnicas reprodutivas, o biobanco cria uma ligação direta entre células armazenadas em congelamento e animais vivos novamente no ambiente.
O plano prevê polos regionais de biobancos em diferentes pontos da África e capacitação de parceiros locais. A Colossal descreve o projeto como um tipo de “seguro biológico” que a área nunca teve.
Planos de conservação e refaunação
Na África do Sul, a Colossal trabalha com a Endangered Wildlife Trust (EWT), uma das organizações de conservação mais respeitadas da região. A cooperação inclui avaliação ecológica, planeamento de habitat e envolvimento comunitário.
“A Endangered Wildlife Trust está comprometida em garantir que quaisquer esforços para restaurar espécies extintas na África do Sul estejam ancorados na integridade do sistema ecológico como um todo”, disse Yolan Friedmann, diretor executivo da EWT.
A Colossal também contratou a Advanced Conservation Strategies (ACS), liderada pelo ecólogo conservacionista Dr. Josh Donlan. O grupo analisa possíveis locais de reintrodução e os caminhos regulatórios previstos na legislação ambiental sul-africana.
Para o Dr. Yoshan Moodley, professor de Zoologia na Universidade de Venda, na África do Sul, o projeto aproxima ciência e aplicação. “O conhecimento sobre as adaptações evolutivas do bluebuck, e quando, por que e como elas ocorreram, pode ajudar a conservação de outros ungulados africanos raros e especializados”, afirmou.
Uma plataforma para a conservação de antílopes
A Colossal apresenta o programa do bluebuck como algo que vai além de uma única espécie. O projeto desenvolveu ferramentas genômicas, métodos com células-tronco, técnicas reprodutivas e infraestrutura de biobancos com potencial de escala para toda a família dos bovídeos.
Essa família reúne mais de 140 espécies - de búfalos e bisões a dezenas de antílopes africanos que hoje estão em apuros. Cada protocolo otimizado para o bluebuck, segundo a empresa, vira uma ferramenta que outros conservacionistas podem utilizar.
“Não estamos apenas a trabalhar para trazer de volta o que foi perdido. Estamos a construir as ferramentas para garantir que nunca mais os percamos”, disse James.
A pesquisa original do genoma do bluebuck foi publicada na revista Current Biology.
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